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um Menino Bem Feio - 14/09/02

As pessoas me faziam esperar constantemente. Não sei se era fisiológico, se minha cara exercia algum tipo de força nas pessoas para que elas sempre deixassem suas casas na hora exata do encontro que se sucederia comigo. E eram mesas de padarias, bares, restaurantes, puteiros e qualquer lugar que eu quisesse me reunir com aqueles míseros seres que um dia me chamavam de amigo e no outro me deixavam lá, sentado, esperando pela presença divina de si mesmos. Já lhes falei que também fico com muita raiva de um instante para o outro?
Um dia desses, após o almoço, tive a péssima idéia de passear para ver se clareava a cabeça, não sucumbia à tentação de me amarrar no sofá e ainda ajudar meus ácidos gástricos na difícil tarefa de transformar em enzimas e substancias nutritivas as quantidades quase animais de alimentos gordurosos consumidos no dia. Ainda não falei que tenho uma certe obsessão por alimentos lisos, engordurados a ponto de deixarem sua mão completamente molhada? Pois é, eu tenho.
O passeio ia bem. O ônibus tomava uma eternidade no seu caminho, parando em pontos onde pessoas estúpidas se empurravam para ver quem primeiro entrava no veículo. Ridículos, seres insignificantes, em uma guerra pessoal apenas para ver quem entra primeiro no lugar que eu mais quero sair no instante. Já lhes falei como sou extremamente chato e nem um pouco racional quando começo a digerir as quantidades absurdas de óleo que ingeri na hora de almoço? As pessoas chamam o período de sesta, mas pra mim poderia ser considerada um fim de semana inteiro. Não contei ainda que, quando digiro minha comida altamente oleosa minhas sinapses cerebrais desaceleram num ponto em que eu realmente acho graça em ver essas brigas na porta do ônibus e ainda achar alguma graça na piada que fiz agora, né? Então.
Comecei a rir alto, de boca aberta ao céu, mostrando meus dentes e língua completamente encharcados pela gordura pegajosa que engordurava os pasteis e enroladinhos primavera que comi na hora do almoço. Difícil mesmo pegar na mão a escova de dente depois desse festival escorregadio (haha...) e tentar acertar um bocado de pasta de dente de maneira que eu possa utilizar as cerdas para tirar a gordura de dentro do céu da boca, não apenas impregná-la mais ainda em dentes do fundo que meus braços gordos não conseguem alcançar de jeito algum. Nunca mencionei que tenho braços gordos e flácidos, alimentados constantemente pela gordura escorregadia que mando garganta abaixo a toda refeição? Pois é.
Tenho apenas um pequeno problema de obesidade que me coloca em categorias especiais dentro de cinemas, teatros, churrascarias rodízios, ônibus de linha e, principalmente, em papos irracionais de magrelos imbecis. Sou troglodita, irracional e, no mínimo sinal de brincadeiras ofensivas (adoro eufemismos), gosto de partir para cima do sujeito autor da tal gracinha com a certeza de que ele não levantará tão cedo. Deus que me perdoe, mas às vezes vou com a mão fechada na intenção de que ele não levante mais. Mesmo. Existe mesmo um Deus para um gordo como eu? Certa vez, citaram o Buda. Infelizmente, a língua do rapaz cansou do conjunto bocal e entrou em carreira-solo. Tentou andar pela calçada, pulando igual a um peixe quando tirado da água. O sangue era muito, o engraçado já estava no chão e não demonstrava nenhuma reação. Pena. Quando ia chegando ao cinema, escutei as sirenes se aproximando. Nenhum dos traunsentes, mesmo indagados pelos médicos, apontaram para minha figura bisonha, parada ali, em frente ao balcão da pipoca.
É bom ser irracional em momentos como esse. Só naquele mesmo. Quando chegamos ao fim, não é nada engraçado.
Não tenho móveis em casa pelo medo de me matar em um acesso de fúria e já desisti da carreira de professor de português, profissão em que sou formado. Letras já não me ajudavam a viver quando meu coração se foi dilacerado por alguém que agora nem consigo me lembrar direito.
A fúria, frustração do dia em que ela fechou a porta ao sair com suas malas tiraram da minha cabeça a real idéia de felicidade e manutenção. Preciso?
Hoje tenho meus quilos como amigo e um buraco no peito que nenhum tipo de óleo, comestível ou não, pode tapar. Tenho uma consciência perturbada por imagens e o um som, o da porta se batendo.
BAM.
Minha vida se desenrola por esse barulho. O sinal do meu intervalo. O gongo que toca na infantaria com a chegada do general. Que não chega nunca e deixa sempre o soldado assim, caído na lama em flexões intermináveis, sem nexo e nem vantagem.
Não contei ainda para vocês que eu não saio e gosto de inventar histórias para tentar me esquivar de certos acontecimentos do passado? Não.
Pois é.